Tendo entrado já tarde, Gato findara a escola primária já com 14 anos. Por essa altura, não dormia descansado. Só pensava como arranjar dinheiro para o comprar. O seu primo Rodrigo, um pouco mais abonado de dinheiro, tinha comprado o violino com ajuda dos pais, mas faltava-lhe jeito para acertar nas notas. Porém, Gato de mãos mais esguias e afinadas era reconhecido e incentivado pelas suas tias a tocar o violino.
Concluiu que a única forma de arranjar o dinheiro era a ir para a feira. Semeou e acabou por colher um belo cebolo. Preparou-o para a feira de Armamar, a uns bons 12 Km da sua aldeia. Mas era preciso dificultar a vida à concorrência, os seus dois vizinhos que também iriam à feira com cebolo. Assim, na véspera à noite, descobriu um estratagema para os reter ou atrasar. Depois dos vizinhos se deitarem, com um arame, prendeu as suas portas de modo a que ou não pudessem ou lhes fosse difícil sair de casa na manha seguinte.
E assim sucedeu. De manhã bem cedo lançou-se ao caminho com o seu cebolo. Os vizinhos debateram-se algum tempo para sair de casa e, sem grande concorrência na feira, as coisas correram de feição. Conseguiu arranjar o que lhe faltava para comprar o violino ao primo.
O violino acompanhou-o toda a sua vida. Percorreu festas e romarias, entrou nas igrejas para acompanhar os cânticos religiosos, animou tardes e serões de amigos e família. E acima de tudo, amenizou a vida de trabalho árduo do campo do seu dedicado dono.