
Em regra, os mais desconsiderados, ignorados ou destetados são corridos para as periferias e tratados com desdém pela maioria. Sofrem mais as agruras da vida, as inclemências do tempo e o desprezo dos demais. E Fingeridas não era exceção. Lá estavam os Martuletas, morando num barraco bem afastado da aldeia, feito à pressa e emprestado por um caridoso proprietário local.
Não tinham filhos.
A fome rondava, frequente, as desavensas entre eles, diária, as bebedeiras do marido, crónicas. O trabalho era escaso, mas lá ia aparecendo. A caridade cristã de algumas quantas almas encurtava-lhes o sofrimento.
Numa quente tarde de verão, depois de um dia nas malhadas e com o vinho a ajudar o Manel Matuleta ia desenrolando as habituais discussões na taberna. Teimava e repisava que não havia homem para ele com o mangual nas unhas. E ele realmente não se deixava ficar para trás, pelo menos enquanto o vinho não lhe subia à cabeça e as pernas lhe começavam a tocar os passos.
"Anda embora Manel" - chamava, mais uma vez, a sua mulher da rua. A Alice não entrava naquela venda atulhada de homens, emaranhados em gritaria, e vinho.
"Por amor de Deus, anda para casa. O vinho é a tua desgraça". E o Manel não ouvia, ninguém a ouvia. Voltava à barraca, acomodava como podia e, vencendo o desanimo, pegava num sono sofrido.